Por Priscila Franco
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| Foto: Hemrique Matos |
Uma noite animada, regado de personalidades do Carnaval. Assim que se pode definir o primeiro dia do seminário “Carnaval – que festa é essa?”, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, com curadoria do jornalista Aydano André Mota. Para marcar o encontro, os carnavalescos Rosa Magalhães e Renato Lage debateram, de forma leve e descontraída, sobre a estética da Folia de Momo.
O Teatro do CCBB foi pequeno para comportar a quantidade de pessoas interessadas pelo assunto. Mostrando que o Carnaval permeia no imaginário do carioca até fora de época, houve até quem ficou de fora e precisou assistir ao debate em uma outra sala improvisada. Do lado de dentro, a grande imprensa especializada em carnaval, o presidente da Liesa, Jorge Castanheira, a comentarista Maria Augusta, diversos representantes de escolas e amantes dessa festa se divertiram com os comentários espirituosos de Rosa e Renato, mediados pelo jornalista e jurado do prêmio estandarte de Ouro, Felipe Ferreira.
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| Foto: Henrique Matos |
De fato, os convidados foram as grandes estrelas da noite. De um lado, Rosa Magalhães, que completou 40 anos de Carnaval neste ano. Sua trajetória inclui escolas como Tradição, União da Ilha e Imperatriz Leopoldinense, onde permaneceu durante 18 anos e conquistou inúmeros títulos com sua riqueza de detalhes e suas alegorias grandiosas. De outro lado, o também experiente Renato Lage, que completará dez anos à frente do Salgueiro, depois de fazer história na Mocidade e no Império Serrano. No bate-papo, Rosa revelou suas manias, preferências e a sua convicção no título para a Vila Isabel em 2012. Renato ponderou, mas mostrou seus medos e seu estilo de trabalhar, admitindo o erro no Carnaval 2011 e olhando para o futuro.
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| Foto: Henrique Matos |
De acordo com o curador do seminário Aydano André Mota, o evento superou suas próprias expectativas e atribui o sucesso à seleção dos convidados e ao apoio que recebeu. “Para mim foi um prazer, porque é galera que eu conheço, que defende gosta e de carnaval, então pelo lado deles foi ótimo. Pelo CCBB, que teve uma sensibilidade enorme em nos acolher, e isso não é trivial, porque muita gente tem preconceito com o assunto e o Banco do Brazil e o CCBB não tiveram, o que foi maravilhoso. Claro que dá muito trabalho, mas é algo que dá gosto de fazer, porque está se materializando em algo muito legal. A receptividade das pessoas depende da qualidade das pessoas que falam, o que foi simples para mim, porque escolhi as pessoas que fazem essa festa e têm uma quantidade de história para contar, relatos a fazer, que são emocionantes e os aplausos da plateia falam melhor do que eu sobre isso”, afirmou ao final do primeiro dia.
Confira o bate-papo de Rosa Magalhães e Renato Lage sobre o tema “Com que roupa”.
Sobre o longo tempo defendendo as cores de uma escola
Rosa: Eu acho que é legal ficar muito tempo porque você vai pegando o jeito. Às vezes é mais fácil, as pessoas se integram rapidamente, eu acho que cada ano em uma escola deve ser uma dificuldade, porque em cada lugar é um jeito. E aí você fica mais confortável, porque tem uma série de fatores que você não desconhece internamente.
Renato: Concordo com a Rosa. Essa questão de dar continuidade a uma escola por um lado é muito bom, porque as pessoas parecem te entender melhor, você se sente mais à vontade. Mas tem gente que acha que você tem que mudar porque já cansou... Um novo desafio é sempre bom. Nessa minha trajetória, passei por escolas que no começo eu tive medo, por uma série de circunstâncias. A Mocidade era uma escola que vinha com dois grandes artistas fazendo o Carnaval, Fernando Pinto e Arlindo Rodrigues, e eu chegando em uma espaço novo e tendo que corresponder a esse mito. Cada um tem um estilo, uma maneira de trabalhar. Isso dá medo, mas depois você começa a se ambientar, as pessoas passam a te entender. Claro que s gente sempre leva pessoas conosco, em quem confiamos. No salgueiro, eu tive uma preocupação porque foi numa época que tinha uma direção onde as pessoas tinham medo, mas era uma questão de “pintar o diabo feio como era” e não era assim. Você ter que chegar lá e ser o salvador da pátria, levar a escola a dar a volta por cima. Foi complicado. Mas essa coisa de permanecer, dar continuidade mais força mais confiança tinha que ser assim. Mudar de endereço todo ano acaba que você não não imprime uma personalidade no seu trabalho e você acaba de perdendo. Isso é complicado. Por outro lado, um desafio novo é sempre bom.
A necessidade de novos desafios profissionais
Rosa: O primeiro trabalho profissional que fiz foi um musical de Chico Buarque e, quando estava tudo pronto, na época do ensaio geral, a polícia o teatro cercou e não deixou sair ninguém. Chegou Chico Buarque, Edu Lobo, ficou todo mundo lá, sem poder sair. Foi um auê, até que negociaram uma paz temporária para podermos sair. O espetáculo foi suspenso, no dia seguinte não teve estreia, e a impressão que eu tive era que o grupo tinha acabado, que eu nunca mais iria trabalhar e aqueles três meses tinham sido os piores da minha vida porque eu vi acabar um trabalho inteiro. Depois me convenci de que não era nada disso. Esse trabalho tinha sido um desastre por circunstâncias outras. Mas todo trabalho que você faz é efêmero. Quando você se convence disso, que ele é temporário, é feito para acabar, é muito bom por causa dessa consciência de que ele mudou, pode mudar, porque tem um prazo de validade. É aquele momento, aquela hora, aquele minuto e acabou. Quando você tem essa consciência, é mais relaxante.
Renato: Concordo, essa sua colocação foi super feliz. Carnaval é uma coisa efêmera. O ser humano também tem uma coisa de ser carente, de querer ver uma coisa nova, e a tendência é essa, de as coisas irem mudando….
Rosa: … quando me perguntam o que tem de novo, eu sempre respondo: a madeira é nova, pneu novo, os tecidos... tudo aqui é novidade! (risos) Tem coisas que não gosto nem de falar, porque esse último ano foi triste.. eu acho que tem que ter mais conscientização, brigada de incêndio, e as pessoas terem interesse e verem que uma tomada pode causar uma catástrofe. Eu falo para as pessoas: não come, não joga a casca de melancia no carro alegórico. Lugar de comer é no restaurante.
Renato: O que você está falando é impressionante, porque quando cheguei na Mocidade, o barracão era super limpo, porque eles têm uma empresa que faz a limpeza. Lá eles já tinham uma maneira de trabalhar, muita gente, então você tinha a cozinha no meio do barracão, que era na Cidade Nova, pagavam para todos almoçarem. E depois disso, sentávamos no barracão e você via pratos em cima do isopor. Para você tirar isso da cabeça deles foi um problema. Não era a casquinha da melancia, mas o prato sujo.
Infraestrutura do carnavalesco
Rosa: Tem uns que têm o barracão mais bem equipado, outros menos... Eu agora tô bem equipadíssima!
Renato: Eu acho que o espaço da Cidade do Samba é bom, mas essa coisa de barracão, todo mundo junto, perdeu um pouco a graça...
Rosa: Eu também acho, escondidinha era mais simpático.
Renato: Sinto saudade do barracão, era outro mundo, sei lá. Hoje, você tem uma passarela, acho que é para turista... Eu combinei com o pessoal do barracão que, se tivesse alguém na passarela, para oferecer um misto-quente, uma laranjada e servir, porque é impressionante.
O relacionamento entre carnavalescos na Cidade do Samba
Renato: Cada um tem sua maneira de trabalhar,
Rosa: Tem uma vantagem ali, porque quando você está sem ferro, você chega no barracão do lado e pede emprestado, um prego, uma cola... é a generosidade de vizinha. Mas no Carnaval (risos)... Eu tenho uma história que nem o Renato sabe, vou contar: no desfile das campeãs, nós que fomos levar oxigênio naquele incêndio.
Renato: A rivalidade fica para lá na hora.
Rosa: Eu já avisei que neste ano a gente vai ganhar? Eu tô divulgando!
Renato: Esse ano é Angola, né? É daquela lista de enredos que vai citar o enredo
Rosa: Não é assim tão simples, não!