| Debate fez parte do Seminário Carnaval - que festa é essa?, que ocorre mensalmente no CCBB | Foto: Priscila Franco |
O baluarte Monarco, de 77 anos, dispensa apresentações. Compôs sambas de enredo e letras consagradas, como "Coração em Desalinho". Hoje em dia, não coloca mais sambas em disputa - por opção -, mas continua na Velha Guarda da Portela, sua escola de coração. Já André Diniz é professor de história e já venceu 12 vezes o hino da Vila isabel, e se orgulha de defender seu pavilhão.
O bate-papo bem-humorado entre os dois compositores transitou entre diversos assuntos, respondendo às curiosidades da plateia que, em determinado momento, deixou os papéis de lado e passou a fazer suas perguntas em voz alta, levantando questões em que puderam tecer comentários sobre o carnaval atual. Muitos saudosistas replicaram, mostrando que o espetáculo do século XXI em pouco lembra o que era feito antigamente.
- Assim como Monarco, eu também sou saudosista, mas é difícil fazer um samba sobre cabelo. Como um compositor vai dar sentido nisso? Um aluno me questionou um dia que a letra de "Aquarela Brasileira", do Império Serrano, não falava o nome da agremiação. Mas por que agora os sambas têm que falar? Como você vai fazer o componente ter emoção falando sobre cabelo? Em algum momento você precisa fazer uma exaltação à escola, para que ele possa se emocionar na Avenida. Por isso que fiz os versos 'Respeite a coroa em meu pavilhão / a desfilar na Avenida / carrega os filhos de Isabel / A liberdade é minha vida, é a Villa! / O brilho, a raiz, a sedução'. E aí você liga o cabelo à escola e tenta tirar leite de pedra. - afirma.
Diniz ainda considera a gravação do CD um dos motivos para que as letras não fiquem mais marcadas na memória de todos como era antes.
- Não estou questionando a competência de ninguém, mas não se faz um CD em uma semana. Às vezes você escolheu o samba no dia 7 e no dia 20 já tem que gravar. Mas se você não gosta do andamento, paciência, porque não tem como escutar a gravação antes, para vermos se era exatamente como queríamos. Aí não tem como gostar de um samba que se escuta no rádio corrido pra caramba, em uma gravação que o próprio compositor não concorda, com os graves cortados e os enredos mais estapafúrdios, a começar pelos enredos de CEP - cidade, estados e país. Por isso que eu falo: a missão que tenho aqui é de defender essa nova geração do samba, a grande vítima desse processo todo somos nós. - declara Diniz.
Finalizando sua divagação, André critica a velocidade do samba atual, em detrimento do estilo cadenciado de antigamente.
- Nós queríamos as coisas mais lentas - essa correria toda atrapalha demais. Eu não sei como eles conseguem tocar aquilo tudo, as passistas dão três sambadinhas e não aguentam mais. Lá na Vila a gente assiste aos vídeos de antigamente e a evolução era muito mais bonita.
Aproveitando a deixa de André Diniz, o mediador Luiz Antonio Simas também cumpriu bem a sua função e levantou a questão sobre o andamento das baterias. Para ele, é uma crítica comum, mas que poucos tentam reverter. O compositor afirma que houve uma tentativa fracassada da sua parte, através do refrão da Vila Isabel deste ano e que alguns mestres de bateria e diretores de harmonia também lutam por tons mais graves.
- O próprio Mestre Odilon declarou que com 150 batimentos por minuto se faz um frevo. Mas tem escola que desfila com 155 bpm. Isso mata a possibilidade da cadência, mas o gigantismo da escola também influencia. Tem umas que desfilam sete mil integrantes. Antes você não tinha essa aceleração toda. - explica o mediador.
Já Monarco considera que os sambas tiveram maior importância no passado e critica as torcidas como método de escolha dos hinos.
| Monarco é integrante da Velha Guarda da Portela | Foto: Priscila Franco |
- Eu sou bem antigo no meio do samba, muita coisa que vi era bonita, mas não vou querer a Portela como eu a conheci, com 200 pessoas, e aquele samba do Paulinho da Viola lindo, que demorava 10 minutos, que tinha umas 60 linhas. Os sambas de antigamente tinham um lirismo, eram muito diferentes. Eu gostava do Silas, que era bom tanto na melodia, quanto na letra. Ele ganhou vários sambas, e muitas vezes o Império chegava bem pobre, mas o samba levantava e a escola levava o segundo ou terceiro lugar. Antigamente era assim, animava harmonia, evolução... Agora vemos algumas injustiças, eu mesmo já vi na Portela. Um cara tinha um samba bonito, mas se não levasse torcida, não funcionava. Hoje se faz assim, se ensaia, leva 30 ônibus de torcida, ele "pega" na quadra. - questiona o baluarte.
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